Na realidade, Otome Games NÃO possuem vilãs!

De noite, num dia qualquer, você abre sua plataforma streaming favorita, ou um App para leitura de mangás. Lá, você percebe que estamos numa tendência: a de obras com as protagonistas morrendo e reencarnando em outro mundo, geralmente baseados em Otome Games e com elas sendo as vilãs destinadas a morrerem nos finais das rotas! Só que na realidade, isso não poderia ser mais errado. Afinal, os Otomes Games raramente possuem vilãs!

Criando a perspectiva que vilãs em otoges sempre existiram, o fórum Syosetu —casa de obras como Log Horizon, Re:Zero, etc— causou um boom na indústria com a publicação do “My Next Life as a Villainess: All Routes Lead to Doom!“, a light novel desse tipo mais famosa da atualidade. Com a revolução causada, hoje temos inúmeras obras se baseando em gameplay de otoges, de pessoas que não possuem ideia sobre o gênero e que estão escrevendo e apenas tentando surfar na maré de possível sucesso que ela poderá trazer para o autor.

Esse tipo de trope é chamada de “Dead Unicorn Trope” e ela se baseia em utilizar elementos como história, personagens ou caracterização da história de uma forma pejorativa, como uma paródia, de algo que não existia previamente.

Leon Fou Bartfort, protagonista de “The World of Otome Games is Tough for Mobs

Certas obras, como “The World of Otome Games is Tough for Mobs” acabam sendo ofensivas para quem curte o gênero, pois além de satirizar extremamente a mídia, também tratam as mulheres como boçais e superficiais. Qual seria o problema de eu, mulher, ter um tipo de obra focado em mim e que possa entregar aquilo que eu anseio, que é o romance?

Foi com essa linha de pensamento que uma das fundadoras da Koei Company, a Keiko Erikawa, criou o Ruby Party, um time especializado e focado em fazer jogos de romance para mulheres, pois o mercado de videogames não tinha intenção alguma de incluir nós como possíveis consumidoras. E finalmente, sendo só em 1994 e com um time predominantemente feminino, temos o primeiro Otome Game criado na história, o “Angelique“.

Cena de gameplay de Angelique (SNES)

E é exatamente em Angelique que vemos o conceito de vilã nos Otome Games, apesar que ainda assim muito erroneamente. Porque a Rosalia não é alguém que cria esquemas para derrubar a protagonista. Ela a vê como uma rival de igual para igual e compete justamente com Angelique para ver quem será a imperadora. No fim, a Rosalia é uma antagonista saudável no universo, que impulsiona a história sempre para frente e com muita dignidade.

Com essa lacuna no mercado finalmente sendo preenchida, vimos durante os anos inúmeras obras marcantes passarem. Tokimeki Memorial Girl’s Side, Hakuouki, Hiiro no Kakera, Amnesia, Diabolik Lovers. A lista é gigante, com temas de todos os tipos para agradar todos os tipos de público. E ainda assim, é difícil citar quantas vilãs de verdade já vimos dentro do gênero.

Verdade sendo dita, esse tipo de vilã que faz bullying, que tortura a protagonista, é um resquício dos shoujos mangás mais antigos. Sendo os títulos bem dramáticos, existem temas do cotidiano sendo abordados, com protagonistas genuinamente gentis, que apenas buscam serem aceitas pelos os outros.

Nanako Misonoo, protagonista de “Oniisama e…

São obras poderosas que marcaram toda a geração da época, com seus traços distintos e com amantes do gênero até hoje, mesmo 40/50 anos depois. Todavia, os mangás shoujo dos anos 70 e os Otome Games não possuem essa relação tão definida quanto acham que têm. O maior vínculo que eles possuem é serem destinados ao público feminino.

Logo então voltamos ao ponto de como as obras femininas sempre foram motivo de chacota dentro do mercado, principalmente diante dos olhos masculinos. Mostrar sensibilidade, emoções, simpatia e afins é algo que deve ser evitado e consumir qualquer obra com esse viés é o mesmo que entregar sua carteirinha de masculinidade no lixo. Mas esse ponto não é o intuito desse texto, que já foi abordado anteriormente nessa postagem feita pela Phii (Mas homens podem jogar Otome Games também?).

O objetivo dos Otomes Games é remover o leitor da realidade e levá-lo ao mundo dos sonhos. É fazer você se sentir amada, querida e desejada. Você quer ler momentos que te deixem felizes, ao invés de cenas que possam te causar estresse pensando em alguma situação do cotidiano que você já viveu. Isso é a fantasia. E a gente não precisa de vilãs nelas quando a história consegue muito bem andar apenas com o passado dos interesses românticos, antagonistas (de qualquer gênero!) e coadjuvantes que dão todo seu suporte.

Imagem promocional do anime de “My Next Life as a Villainess: All Routes Lead to Doom!

Enquanto obras como “My Next Life as a Villainess: All Routes Lead to Doom!” não condizem com a realidade do gênero, elas conseguem agradar as jogadoras por terem mais tato. Juntando com o carisma dos personagens e uma história interessante, o seu sucesso é muito mais que justificável, a ponto de ocorrer uma adaptação em Otome Game da própria obra que, bem, se baseia em um otoge.

Com isso, podemos dizer que chegamos ao fim de um ciclo, onde não vamos mais saber o que originou o que. É o charme que o mercado consegue nos entregar com sua constante demanda por mais. Uma hora irá saturar (se já não está saturado) e iremos ter um novo ciclo, renovando sempre aquilo que está na tendência do momento.

De qualquer forma, não estou criticando o gênero de isekai com vilãs! Eu particularmente curto muito, mas sendo consumidora de jogos, mangás, livros e afins, não podia deixar de ter esse desconforto no peito. Toda vez que vêm me pedir recomendação de algum Otome Game nesse molde, eu fico sem graça em dizer “Sabe, não é bem assim…“. O objetivo desse texto é compartilhar essas informações de “pouco” acesso, que no mar da internet atual, são facilmente perdidas.

Espero que possa ter ajudado a clarificar um pouco os pontos e não ter ofendido ninguém. E que sejamos sempre felizes ao aproveitar nossas otomices <3

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s